quarta-feira, 9 de julho de 2008

A Chegada

O ônibus chegou ao seu destino final às 18h37min, o sol já ia se pondo, ele não sabia exatamente em qual parte do país estava; mas não fazia diferença. Era uma terça-feira, as pessoas comemoravam algum feriado ou coisa assim. As ruas estavam cheias de gente com uma alegria que seria contagiante a qualquer um que ligasse para aquilo, não para ele. Não se lembra exatamente porque começou a andar, nem se lembra a ultima vez que esteve em casa, ou o que era ter um lugar para chamar assim.

Pegou o cantil em sua mochila e foi enchê-lo no bebedouro da estação. Observou os mendigos e pedintes sentados em seus bancos demarcados por cobertores velhos e papelões encharcados pela chuva que havia caído algumas horas antes. Não se importou com isso, nada do que pudesse fazer resolveria o problema daquelas pessoas. Ele tinha os seus próprios problemas, não que se importasse com eles também; parou de se importar com o mundo há muito tempo.

Tinha uma lógica muito peculiar e às vezes cruel a respeito de como deveria agir, não se guiava por regras de boa convivência, mas pela sua própria consciência do que é certo.

Passou indiferente pela concentração de pessoas que dançavam com rostos iguais, posturas iguais e vidas que provavelmente estavam tentando esquecer, naquele festim que se envolviam. Nunca foi muito dado a comemorações, nunca achava que o motivo era válido. A ultima vez que comemorou algo com real significado está perdido.

Resolvido à não perder mais tempo analisando vidas alheias começou a procurar um lugar em que pudesse tomar um banho e passar a noite. Procura que acabou se tornando muito difícil, pois essa maldita festa lotava todos os becos e vielas da cidade, e ao que parece, nenhuma das pessoas que ali estavam moravam na cidade. Todas as pousadas com um preço justo estavam fechadas, ou isso ou os preços deixaram de ser justos em algum ponto do tempo em que ele não conseguia se lembrar.

Quando a chuva recomeçou alguns bêbados comemoraram simplesmente por não ter mais nada a fazer. Foi procurar abrigo, as suas roupas não lhe proporcionariam uma noite quente se estivessem encharcadas. Se encostou na parede de um restaurante, usando a marquise como guarda-chuva, o cheiro de carne assada e peixe o atingiu como um soco bem dado no estomago, percebeu que não comera nada nas ultimas 15 horas, resolveu que uma boa refeição lhe serviria melhor do que uma cama excessivamente cara. Serviu-se de bastante carne e arroz, e um molho que não conseguiu identificar o que era, mas que tinha um gosto delicioso. Por algum motivo que não entendeu pensou naqueles pedintes da estação, que provavelmente voltariam pra casa com mais dinheiro do que muitos trabalhadores, e certamente com muito mais do que lhe havia sobrado.

Ainda não tinha onde passar a noite, mas naquela hora isso ainda não era importante, queria agora se livrar da multidão, ele não demonstrava, mas tinha certa repulsa a aglomerações. Assim caminhou para o mais longe do barulho que conseguiu, queria ficar como estava acostumado a ser, só.

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